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A foz do Rio Doce e o prejuízo ambiental para a vida marinha da Costa Brasileira

Publicada por Clima ao Vivo em 01/02/2016
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Uma matéria publicada neste mês na revista "Pesquisa Fapesp" dá um pouco da dimensão do prejuízo ambiental para a vida marinha que a tragédia de Mariana está causando.

Dos pesquisadores, especialistas em oceanografia geológica, que já trabalhavam naquela área há mais de cinco anos, em um projeto de manejos tanto para pesca quanto para a extradição de petróleo, são o enfoque da reportagem. A primeira cultura, pesca, depende da saúde do ecossistema costeio, que pode estar terrivelmente ameaçada com os dejetos da mineradora Samarco que chegam até ali pelo Rio Doce.

No início de novembro, quando romperam as barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais, eles integraram o grupo uma centena de pesquisadores organizado pela Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes) e logo se prepararam para colher amostras comparativas. "No dia 21 de novembro a pluma que desceu o rio Doce chegou à foz e já tínhamos o barco preparado", conta Valéria, uma das pesquisadoras. No dia seguinte sua equipe coletava amostras da água marinha tingida de laranja.

Os primeiros resultados, publicados em Dezembro de 2015 pela revista Brazilian Journal of Geology, mostram que os sedimentos mais finos passam por um processo rápido de deposição, conhecido como floculação, quando a água doce encontra a salinidade e o pH diferentes do mar. A deposição desse sedimento, classificado como lama terrígena, se dá principalmente em profundidades de ao menos 10 metros, ao sul de onde o rio Doce desemboca, para onde são empurrados pelo vento nordeste - o predominante por ali. "Em seguida esse material pode ser ressuspendido e redistribuído para norte, conforme a força e a direção dos ventos e das ondas", explica Valéria.

Mesmo com conhecimento da região e com todo o preparo para receber a onda de lama que percorreu parte de Minas Gerais e do Espírito Santo, causando grandes danos às cidades adjacentes e à ecologia do rio e seus arredores, a avaliação do impacto do material oriundo dos rejeitos de mineração não é imediata. O que deu para ver logo de cara é que se trata de um volume espantoso de material argiloso com partículas muito finas, que não se depositam facilmente. "Não conhecemos esse tipo de sedimento que integra os rejeitos", conta Valéria, "não sabemos como ele se comporta". Ela pretende acompanhar sua trajetória em uma série de futuras viagens de campo. "Precisamos entre um e dois meses para ver como ficou o fundo".

Nas coletas que já fizeram, os pesquisadores se espantaram com a água completamente turva, que tornava difícil enxergar os equipamentos submersos. Essa mudança nas características físicas da água, segundo Valéria, pode alterar completamente o ambiente necessário à vida dos organismos que vivem no fundo e compões a base da cadeia alimentar marinha: a comunidade bentônica.

Além dos sedimentos, também preocupa os pesquisadores o conteúdo da lama em termos químicos como ferro, alumínio, manganês, ou cromo. Destes, o mais preocupante foi o teor muito aumentado de cromo, um elemento que pode ser tóxico conforme sua apresentação. "Em geral ele ocorre na forma menos tóxicas", explica Rodrigues Neto, coordenador do Laboratório de Geoquímica Ambiental do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes, "mas ainda não testamos para saber o que existe agora". São análises mais complexas, que exigirão uma parceria com outros laboratórios. Também falta e acordo com o químico, avaliar se o cromo está numa forma biodisponível, que pode ser absorvida pelos organismos.

A gravidade do acidente levou a uma cobrança por respostas imediatas e à organização rápida de pesquisadores empenhados em encontrá-las. Mesmo assim, entender como o ambiente e os organismos que vivem nele vão reagir e ser afetados requer tempo. Nos próximos meses, deve começar a se delinear o efeito causado nos animais e nas plantas da região.

Vale salientar, que a Mineradora Samarco teve um novo acidente na última semana de Janeiro, mais precisamente na quarta-feira, dia 27, quando houveram novos desmoronamentos de sedimentos na Barragem do Fundão. Segundo um Engenheiro Geotécnico ouvido pelo Fantástico da Rede Globo, os desabamentos foram ocasionados pelas chuvas dos últimos dias. Ainda segundo ele, isso será muito difícil de conter, pois quanto mais chover, mais o material poderá ficar instável. O maior medo é que esses dejetos cheguem até a barragem de Santarém que está abaixo da Barragem do Fundão e que possa ocasionar um "entupimento" e por consequência uma nova ruptura, fazendo com que milhares de litros de dejetos cheguem até os rios novamente, incluindo o próprio Rio Doce.

Segundo o Ministério Público, eles acompanham o caso de perto. A Samarco diz que estes tipos de desmoronamentos já eram previstos devido à instabilidade do terreno depois do acidente em novembro. Mas que não há riscos de rompimento nas outras barragens adjacentes, e que todas estão recebendo reforço para que não haja mais acidentes.

À população, só resta torcer para que desta vez a mineradora esteja falando a verdade.

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